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Carta
relembra feridas de um tempo sangrento
Daniel A.
Rubio é meu amigo de fé, meu irmão camarada. “Cabra
bom”, para usar uma frase típica de outro amigo querido, o
jornalista Costábile Nicoletta.
Daniel é
um
documentarista chileno
dos bons que mora no Brasil há cerca de uma década – e com quem
começo a aprender essa arte, que aproxima duas de minhas
paixões, o jornalismo e o cinema (já
fizemos até um primeiro vídeo em conjunto,
por puro prazer e diversão).
Ele escreveu
um texto tocante sobre seu país depois do resultado das
eleições presidenciais,
no domingo passado.
A carta – é
a carta aberta a um amigo em comum, o chapa
Edson Lima,
produtor cultural, responsável projeto
O Autor na Praça
–nasceu depois que o Edson lhe enviou uma matéria de um portal
cuja manchete era: “Direita volta ao poder no Chile”.
E então Edson, no
mesmo e-mail, perguntou:“Meu amigo, o que aconteceu no Chile?A
carta traz reminiscências de um tempo sangrento. É como um filme
que, embora de horror, também seja feito com cenas de amor e
solidariedade.
É um pouco longo,
mas vale a pena.
CARTA ABERTA A
EDSON LIMA
“Meu
amigo, o que aconteceu no Chile?”
Daniel A
Rubio
Na segunda-feira,
dia 18 de janeiro de 2010, recebi um e-mail de meu amigo Edson
Lima. Ele me questionava. “Daniel, o que aconteceu no Chile?”, e
me copiava os resultados da eleição para presidente no meu país.
“Direita volta ao poder no Chile”, dizia manchete da matéria que
me enviou.
“Daniel, o que
aconteceu?”
Como explicar para
Edson? Pensei até em criar uma história ou inventar uma
desculpa, mas ele não acreditaria em qualquer coisa.
Edson é um
apaixonado por política. Gestor cultural na área de literatura
em São Paulo, é completamente dedicado à paixão aos livros e à
cultura. Eu precisava explicar de alguma forma. Foi assim que
uma série de imagens me veio à mente.
Embora não viva no
Chile há muitos anos, minha mente foi longe.
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Empresas escondiam produtos para sabotar Allende
Lembrei-me de,
quando ainda uma criança de doze anos, pegava filas para comprar
óleo, açúcar ou arroz para minha família. Claro que não se
conseguia comprar tudo no mercado negro, por causa do embargo
comercial e da falta de mercadorias – a direita havia retirado
os produtos das prateleiras como forma de pressionar Salvador
Allende, o primeiro governo socialista eleito (1970) por voto
direito e democrático na América Latina.
Segundo a direita
– e os EUA -, essa pressão tinha o objetivo de extirpar do
continente uma corrente perigosa de esquerda que crescia por
aqueles anos.
Depois me lembrei
dos aviões, rasantes, que retomavam altitude de voo depois de
lançarem bombas sobre o La Moneda, o palácio de governo, naquele
fatídico 11 se setembro de 1973. Gente pulava e buzinava nas
ruas. E também muita gente triste. Era o começo da ditadura de
Augusto Pinochet.
Já de início os
direitos civis foram terrivelmente esmagados. As organizações de
bases foram reprimidas e praticamente exterminadas. Não havia
permissão para reuniões de grupos. Os movimentos comunitários,
clubes esportivos ou um simples centro de mães: nada podia se
organizar.
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Bombardeio ao La Moneda matou Allende
Num país
historicamente católico, extremadamente conservador e
socialmente homogêneo, isso tornava a população ainda mais
dependente de um poder central. As informações eram filtradas
antes de chegarem ao povo, enquanto as decisões da ditadura eram
disseminadas como a voz oficial, de modo a nos convencer de que
um novo Chile, livre do perigo do comunismo, estava em
construção.
E eis que, num
passo de mágica, as coisas começaram a funcionar. Poucas semanas
depois do golpe as prateleiras dos supermercados estavam
novamente repletas de produtos… Tudo parecia voltar ao normal
depois do “caos”.
Bom, parecia
normal para a massa, mas não para os muitos que eram
perseguidos, exilados, torturados ou desaparecidos.
Começava a
construção de um “novo” Chile. Em meados dos anos 1970,
instaurou-se o regime econômico neoliberal, inspirado em estudos
de livre mercado de um grupo de economistas de Chicago (os
“Chicago´s boys”). O livre mercado tomava conta do Chile.
Pela primeira vez
na minha vida, vejam que ironia, podia sonhar com uma calça
jeans da Levis, comprada numa loja de um bairro nobre de
Santiago! Antes, isso só era possível se o algum amigo viajasse
ao exterior e contrabandeasse os preciosos jeans da Levis.
E esse admirável
mundo do consumo se estendeu a vários produtos: óculos, tênis,
sapatos, jaquetas de estilo. O curso da moda para os jovens era
a publicidade. Muitos se viram influenciados pelo glamour e a
criatividade do apaixonante mundo da propaganda. Um desses
jovens fui eu.